Quem tem glaucoma pode fazer mergulho com cilindro? Entenda os riscos e cuidados

Quem tem glaucoma pode fazer mergulho com cilindro? Entenda os riscos e cuidados

O mergulho com cilindro é uma atividade que desperta dúvidas entre pessoas diagnosticadas com glaucoma. Afinal, a pressão exercida pela água pode aumentar a pressão dentro dos olhos e prejudicar o nervo óptico?

A resposta pode surpreender: ter glaucoma não é uma contraindicação absoluta para praticar mergulhos mais profundos, que necessitam de cilindro, ou seja, o scuba diving.

Segundo a Divers Alert Network (DAN), organização internacional especializada em medicina do mergulho, não existem evidências conclusivas de que o mergulho recreativo, por si só, provoque a progressão do glaucoma. Entretanto, existem situações que exigem cuidados especiais e avaliação oftalmológica antes da prática.

O que acontece com a pressão dos olhos durante o mergulho?

Para entender a relação entre glaucoma e mergulho, é importante compreender como a pressão ambiental funciona. Quanto maior a profundidade, maior a pressão exercida pela água sobre o corpo. A aproximadamente 10 metros de profundidade no mar, a pressão ambiente total é de cerca de duas atmosferas, o dobro da pressão encontrada na superfície.

Como a pressão intraocular elevada é o principal fator de risco modificável para a progressão do glaucoma, é natural imaginar que mergulhar possa representar um perigo para o nervo óptico.

Entretanto, a relação não é tão simples. O aumento da pressão ambiental não provoca, necessariamente, um aumento equivalente da pressão intraocular medida em relação ao ambiente. Além disso, alterações na circulação sanguínea ocular e outros mecanismos fisiológicos podem influenciar a resposta dos olhos ao mergulho.

Estudos realizados em ambientes hiperbáricos e durante mergulhos recreativos encontraram resultados diferentes, mas vários deles identificaram uma redução da pressão intraocular após a exposição ao aumento da pressão ambiental.

O que dizem os estudos científicos sobre glaucoma e mergulho?

Uma revisão sistemática publicada em 2024 na revista científica Frontiers in Medicine, intitulada A deep dive into hyperbaric environments and intraocular pressure, analisou nove estudos sobre os efeitos de ambientes hiperbáricos e do mergulho na pressão intraocular.

De maneira geral, a revisão identificou uma tendência de redução da pressão intraocular durante a exposição ao aumento da pressão atmosférica ou após o mergulho. Porém, os pesquisadores ressaltaram que ainda são necessários estudos específicos com pacientes com glaucoma para determinar a segurança dessa atividade e seus possíveis efeitos de longo prazo sobre o nervo óptico.

Isso significa que a redução temporária da pressão intraocular observada em alguns estudos não deve ser interpretada como um benefício terapêutico do mergulho para pessoas com glaucoma.

Em quais situações o mergulho com cilindro pode representar riscos para quem tem glaucoma?

Embora o diagnóstico de glaucoma não seja uma contraindicação definitiva para o mergulho recreativo, algumas condições exigem atenção especial.

  1. Glaucoma de ângulo fechado

Pessoas com ângulo estreito e risco de fechamento angular precisam de avaliação específica.

Uma revisão sobre medicina do mergulho publicada em 2015 considera o glaucoma de ângulo aberto bem controlado, sem comprometimento funcional do nervo óptico, compatível com a atividade. Por outro lado, recomenda que pessoas com ângulo estreito não tratado não mergulhem.

Saiba mais: entenda o que é, quais as causas, sintomas e tratamento do glaucoma de ângulo fechado no artigo completo em nosso BLOG: https://mariabeatrizguerios.com.br/2025/07/16/sintomas-do-glaucoma-de-angulo-fechado-quais-sao/

  1. Cirurgias prévias para glaucoma

Pacientes que passaram por cirurgias filtrantes, como a trabeculectomia, precisam de cuidados adicionais. Esses procedimentos criam uma via de drenagem do humor aquoso para ajudar a controlar a pressão intraocular.

Segundo a DAN e as recomendações médicas para mergulho recreativo, o barotrauma causado pela equalização inadequada da máscara pode comprometer o funcionamento dessa via de drenagem. Existe também um risco teórico de infecção intraocular associado a determinadas condições da área filtrante.

Portanto, pessoas que realizaram cirurgias para glaucoma devem consultar o cirurgião responsável antes de mergulhar.

  1. Uso de medicamentos para glaucoma

Alguns medicamentos utilizados no tratamento do glaucoma podem exigir cuidados especiais durante o mergulho.

O timolol, por exemplo, é um betabloqueador presente em determinados colírios para reduzir a pressão intraocular. Mesmo aplicado nos olhos, pode ser absorvido pelo organismo e provocar redução da frequência cardíaca, o que merece atenção durante atividades subaquáticas.

Já a acetazolamida, utilizada em algumas situações para controlar a pressão intraocular, pode causar formigamento nas mãos e nos pés. Esses sintomas podem ser confundidos com manifestações da doença descompressiva.

A DAN recomenda que pacientes em tratamento para glaucoma discutam os medicamentos utilizados com o oftalmologista antes de mergulhar.

Importante: os medicamentos nunca devem ser suspensos por conta própria para permitir a prática do mergulho.

  1. Glaucoma avançado e perda do campo visual

O glaucoma pode provocar perda progressiva da visão periférica. Em estágios avançados, esse comprometimento pode dificultar a orientação espacial, a identificação de obstáculos e a percepção de sinais de segurança durante o mergulho.

Por isso, além da pressão intraocular, o oftalmologista deve avaliar a extensão do comprometimento visual e sua repercussão na segurança da atividade.

A máscara de mergulho pode aumentar a pressão intraocular?

Outro aspecto importante é o tipo de máscara utilizada e a maneira como ela é ajustada. Um estudo publicado em 2016, envolvendo 40 participantes saudáveis, avaliou o efeito da máscara de mergulho sobre a pressão intraocular.

Os pesquisadores identificaram uma pequena redução média da pressão intraocular, de 17,23 mmHg para 16,80 mmHg, após a colocação da máscara.

Os resultados sugerem que uma máscara convencional de mergulho, diferentemente de alguns óculos de natação, não provoca necessariamente aumento da pressão intraocular pela pressão exercida sobre os tecidos ao redor dos olhos.

Entretanto, é fundamental realizar a equalização correta da máscara durante a descida. A diferença de pressão entre o interior da máscara e o ambiente pode provocar barotrauma ocular, especialmente quando não há compensação adequada.

Quem tem glaucoma pode mergulhar com cilindro com segurança?

A possibilidade de praticar mergulho depende de uma avaliação individualizada.

Antes de liberar a atividade, o oftalmologista especialista em glaucoma deve considerar o tipo e o estágio da doença, a estabilidade da pressão intraocular, os resultados dos exames de campo visual e nervo óptico, os medicamentos utilizados e o histórico de cirurgias.

Também pode ser necessária uma avaliação por médico especializado em medicina do mergulho, considerando as condições clínicas gerais e as características da atividade pretendida.

O mais importante é compreender que glaucoma não significa proibição automática de mergulhar, mas também não permite uma liberação indiscriminada.

Conclusão

O mergulho com cilindro pode ser uma atividade possível para algumas pessoas com glaucoma, especialmente quando a doença está bem controlada e não existem fatores adicionais de risco.

As evidências científicas disponíveis não demonstram que a exposição à pressão ambiental do mergulho provoque, necessariamente, elevação da pressão intraocular. No entanto, ainda faltam pesquisas suficientes para estabelecer a segurança da prática em diferentes perfis de pacientes com glaucoma.

Por isso, antes de planejar um mergulho, procure seu oftalmologista especialista em glaucoma. Uma avaliação individualizada é essencial para proteger a visão e permitir decisões seguras sobre atividades de lazer e esportes.

Artigo com supervisão- Dra. Maria Beatriz Guerios – CRM 102.665 / RQE 96.065

A Dra. Maria Beatriz Guerios é médica oftalmologista e especialista em glaucoma, dedicando-se ao diagnóstico, acompanhamento e tratamento da doença. Seu trabalho é focado na preservação da visão por meio de uma abordagem individualizada e baseada nas evidências científicas mais atuais.

Formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), conta com especialização pela UNIFESP. Possui Título de Especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e pela Associação Médica Brasileira (AMB).

O consultório fica na Vila Nova Conceição, zona sul da cidade de São Paulo. O atendimento conta com a experiência em Glaucoma da Dra. Maria Beatriz, além de exames de ponta e cirurgia a laser para o glaucoma.

Para agendar a sua consulta, por favor mande mensagem no whatsapp ou ligue para:

(11) 97859 1080

 

Referências

Lentz PC, Lim SY, Betzler BK, Miller DD, Dorairaj SK, Ang BCH. A deep dive into hyperbaric environments and intraocular pressure-a systematic review. Front Med (Lausanne). 2024 Apr 3;11:1365259. doi: 10.3389/fmed.2024.1365259. PMID: 38633303; PMCID: PMC11021581.

Divers Alert Network (DAN) — High-Pressure Ophthalmology (https://dan.org/health-medicine/health-resources/diseases-conditions/high-pressure-ophthalmology/)

Eichhorn L, Leyk D. Diving medicine in clinical practice. Dtsch Arztebl Int. 2015 Feb 27;112(9):147-57; quiz 158. doi: 10.3238/arztebl.2015.0147. PMID: 25797514; PMCID: PMC4381562.

Goenadi CJ, Law DZ, Lee JW, Ong EL, Chee WK, Cheng J. The Effect of a Diving Mask on Intraocular Pressure in a Healthy Population. Case Rep Ophthalmol. 2016 Jun 13;7(2):328-32. doi: 10.1159/000446423. PMID: 27462262; PMCID: PMC4943308.

Diving Medical Guidance (2023) — UHMS (https://uhms.org/images/Recreational-Diving-Medical-Screening-System/forms/Diving_Medical_Guidance_EN_English_V2023.pdf)

 

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