
Atividade física pode retardar a progressão do glaucoma? O que dizem os estudos
A prática regular de atividade física pode contribuir para a saúde dos olhos e ajudar a retardar a perda do campo visual em pessoas com glaucoma. Estudos científicos sugerem que pacientes mais ativos apresentam uma progressão mais lenta da doença quando comparados àqueles que realizam pouca atividade física.
Isso não significa, entretanto, que os exercícios curem o glaucoma ou substituam o tratamento indicado pelo oftalmologista. A atividade física deve ser entendida como uma medida complementar, que pode favorecer o controle da pressão intraocular, a circulação sanguínea e a saúde geral do paciente.
Resposta direta: atividade física ajuda no glaucoma?
Sim. As evidências disponíveis sugerem que a prática regular de atividade física, principalmente aeróbica, pode estar associada a:
- progressão mais lenta da perda do campo visual;
- redução temporária da pressão intraocular;
- melhora da circulação sanguínea;
- melhor controle da pressão arterial, diabetes e peso corporal;
- manutenção da mobilidade e da qualidade de vida.
Contudo, os estudos ainda não permitem afirmar que a atividade física, isoladamente, previne o glaucoma ou interrompe sua progressão.
O efeito pode variar de acordo com o tipo e a gravidade da doença, o controle da pressão intraocular, a idade, as condições cardiovasculares e a modalidade de exercício praticada.
O que é o glaucoma?
O glaucoma é um grupo de doenças que provoca danos progressivos ao nervo óptico, estrutura responsável por transmitir as informações visuais dos olhos ao cérebro.
O tipo mais comum é o glaucoma primário de ângulo aberto, que geralmente evolui de forma lenta e sem sintomas nas fases iniciais. Com o passar do tempo, a doença pode causar perda progressiva do campo visual, principalmente da visão periférica.
A visão já perdida em decorrência do glaucoma não pode ser recuperada. Por isso, o tratamento tem como objetivo proteger o nervo óptico e impedir ou retardar novos danos.
Qual é o papel da pressão intraocular?
A pressão intraocular elevada é o principal fator de risco modificável para o desenvolvimento e a progressão do glaucoma. Isso significa que é o fator sobre o qual os tratamentos atuais conseguem atuar de forma mais direta.
Entretanto, o glaucoma não depende apenas da pressão ocular. Algumas pessoas desenvolvem a doença mesmo apresentando valores considerados dentro da faixa normal. Além disso, há indivíduos com pressão elevada que nunca desenvolvem lesão glaucomatosa.
Por esse motivo, os pesquisadores também estudam fatores relacionados a:
- circulação sanguínea do nervo óptico;
- saúde cardiovascular;
- estresse oxidativo;
- inflamação;
- envelhecimento celular;
- metabolismo;
- hábitos de vida.
A atividade física desperta interesse justamente porque pode atuar sobre vários desses mecanismos.
Estudo relaciona atividade física à progressão mais lenta do glaucoma
Um estudo publicado em 2025 no Journal of Glaucoma avaliou a relação entre os níveis de atividade física e a velocidade de progressão do campo visual em pessoas com glaucoma primário de ângulo aberto.
Os pesquisadores analisaram informações de pacientes acompanhados por meio de exames seriados de campo visual. O nível de atividade física foi estimado com um questionário internacional validado, que considera a frequência e a intensidade das atividades realizadas.
Os participantes foram classificados de acordo com o nível de atividade física relatado.
Os resultados mostraram que os pacientes mais ativos apresentaram uma redução mais lenta da medida chamada desvio médio do campo visual. Esse índice é utilizado para acompanhar a evolução da perda funcional causada pelo glaucoma.
Em outras palavras, quanto maior o nível de atividade física relatado, menor foi a velocidade de piora do campo visual observada durante o acompanhamento.
O que esse resultado significa?
O estudo sugere que a atividade física pode funcionar como um fator modificável associado a uma evolução mais favorável do glaucoma.
Na prática, isso significa que caminhar, pedalar, dançar ou realizar outras atividades aeróbicas regularmente pode fazer parte dos cuidados gerais recomendados ao paciente.
Contudo, o estudo foi observacional. Portanto, ele encontrou uma associação, mas não conseguiu provar que os exercícios foram diretamente responsáveis pela progressão mais lenta.
Também é possível que pacientes com glaucoma menos avançado tenham maior facilidade para se movimentar e, consequentemente, pratiquem mais atividades físicas. Essa possibilidade é chamada de causalidade reversa.
Mesmo com essa limitação, os resultados reforçam achados anteriores que relacionaram uma vida fisicamente ativa à preservação da função visual.
Pessoas sedentárias podem apresentar progressão mais rápida?
Alguns estudos observacionais indicam que maior tempo sedentário pode estar associado a uma perda mais rápida do campo visual em pessoas com glaucoma. Entretanto, ainda não é correto afirmar que o sedentarismo seja uma causa direta da progressão da doença.
Pacientes com perda visual mais avançada podem caminhar menos por diversos motivos, como:
- medo de quedas;
- dificuldade para enxergar obstáculos;
- menor segurança para sair de casa;
- redução da autonomia;
- presença de outras doenças;
- idade avançada.
Portanto, existe uma relação complexa: o sedentarismo pode prejudicar a saúde geral, mas a própria perda visual também pode levar a uma redução da atividade física.
Como o exercício pode beneficiar os olhos?
Existem algumas hipóteses para explicar a possível relação entre atividade física e menor progressão do glaucoma.
Redução temporária da pressão intraocular
Os exercícios aeróbicos podem provocar uma redução transitória da pressão intraocular logo após a atividade.
Esse efeito pode variar conforme:
- intensidade do exercício;
- duração;
- nível de condicionamento físico;
- hidratação;
- horário;
- pressão intraocular inicial;
- medicamentos utilizados pelo paciente.
A pressão tende a retornar posteriormente aos níveis anteriores. Por isso, esse efeito temporário não substitui o uso dos colírios ou outros tratamentos.
Melhora da circulação sanguínea
A atividade física regular favorece a saúde cardiovascular e pode contribuir para uma circulação sanguínea mais eficiente.
Como o nervo óptico depende de um suprimento adequado de oxigênio e nutrientes, alterações vasculares podem influenciar sua capacidade de resistir aos danos.
Contudo, a circulação ocular é complexa. Quedas excessivas da pressão arterial, especialmente durante a noite, também podem ser prejudiciais em alguns pacientes.
Controle de fatores metabólicos
O exercício ajuda a controlar condições que podem afetar indiretamente a saúde ocular, como:
- hipertensão arterial;
- diabetes;
- colesterol elevado;
- obesidade;
- apneia do sono;
- inflamação crônica.
Dessa forma, manter-se ativo pode beneficiar não apenas os olhos, mas todo o organismo.
Possível efeito neuroprotetor
Estudos experimentais sugerem que o exercício pode estimular mecanismos relacionados à proteção das células nervosas, incluindo melhora do metabolismo energético, redução do estresse oxidativo e liberação de substâncias associadas à sobrevivência neuronal.
Entretanto, ainda não está comprovado que esses mecanismos sejam suficientes para proteger diretamente o nervo óptico em seres humanos com glaucoma.
Quais exercícios são mais indicados para pessoas com glaucoma?
De maneira geral, os exercícios aeróbicos moderados são os mais estudados e costumam ser bem tolerados.
Entre as possibilidades estão:
- caminhada;
- bicicleta;
- bicicleta ergométrica;
- dança;
- corrida leve;
- exercícios no aparelho elíptico;
- hidroginástica;
- subida de escadas;
- natação, quando liberada pelo oftalmologista.
A modalidade deve ser escolhida de acordo com a idade, o condicionamento físico, as condições cardiovasculares, o equilíbrio e a gravidade do glaucoma.
Uma pessoa sedentária não precisa começar com exercícios intensos. Caminhadas curtas e regulares já representam uma mudança positiva, desde que sejam realizadas com segurança.
Musculação pode aumentar a pressão dos olhos?
Durante exercícios de força muito intensos, especialmente quando a pessoa prende a respiração, pode ocorrer uma elevação temporária da pressão intraocular.
Esse fenômeno está relacionado, entre outros fatores, à manobra de Valsalva, que acontece quando a pessoa bloqueia a respiração enquanto realiza força.
Isso não significa que todas as pessoas com glaucoma estejam proibidas de fazer musculação. Na maioria dos casos, o treinamento de força pode ser realizado, desde que haja orientação adequada.
Alguns cuidados incluem:
- evitar prender a respiração;
- expirar durante a fase de maior esforço;
- não utilizar cargas máximas sem orientação;
- evitar repetições até a exaustão completa;
- realizar progressão gradual das cargas;
- informar o treinador sobre o diagnóstico;
- conversar com o oftalmologista nos casos avançados.
Pessoas com glaucoma podem fazer ioga?
A ioga pode trazer benefícios para flexibilidade, equilíbrio, respiração e bem-estar emocional. Entretanto, algumas posições invertidas podem aumentar rapidamente a pressão intraocular.
Isso pode ocorrer em posturas nas quais a cabeça permanece abaixo do nível do coração, principalmente quando mantidas por períodos prolongados.
Pacientes com glaucoma devem conversar com o oftalmologista sobre a necessidade de adaptar ou evitar determinadas posições, especialmente quando a doença está avançada ou a pressão ocular não está controlada.
A orientação não é abandonar toda a prática, mas selecionar posturas mais seguras.
Natação e mergulho exigem cuidados?
A natação não é necessariamente contraindicada para todas as pessoas com glaucoma. Entretanto, óculos de natação muito apertados podem exercer pressão ao redor dos olhos e provocar elevação transitória da pressão intraocular.
O ideal é utilizar modelos adequados, que não comprimam excessivamente a região ocular.
O mergulho também exige avaliação individual. Mudanças de pressão, profundidade, tipo de equipamento e condições clínicas podem influenciar a recomendação.
Pacientes que passaram por determinadas cirurgias oculares devem receber orientações específicas antes de mergulhar.
Quanto exercício uma pessoa com glaucoma deve fazer?
Não existe uma quantidade única de exercício prescrita especificamente para todos os pacientes com glaucoma.
Como orientação geral de saúde, adultos costumam ser estimulados a acumular atividades aeróbicas moderadas durante a semana e incluir exercícios de fortalecimento muscular.
Para pessoas sedentárias, idosas ou com outras doenças, o início deve ser gradual.
Um plano possível pode envolver:
- começar com caminhadas de 10 a 15 minutos;
- aumentar progressivamente o tempo;
- buscar regularidade, em vez de intensidade excessiva;
- combinar atividades aeróbicas e fortalecimento;
- incluir exercícios de equilíbrio quando houver risco de quedas.
A recomendação deve ser individualizada pelo médico responsável e, quando necessário, por um profissional de educação física ou fisioterapeuta.
Quem tem glaucoma avançado precisa de mais cuidado?
Sim. A perda importante do campo visual pode afetar a mobilidade e aumentar o risco de:
- tropeços;
- colisões com objetos;
- quedas;
- dificuldade em escadas;
- insegurança em ambientes pouco iluminados;
- acidentes durante atividades ao ar livre.
Nesses casos, o exercício continua sendo importante, mas pode precisar de adaptações.
Ambientes bem iluminados, esteiras com apoio, bicicletas ergométricas, exercícios supervisionados e atividades para equilíbrio podem oferecer maior segurança.
Exercício substitui os colírios para glaucoma?
Não. A atividade física não substitui:
- colírios;
- trabeculoplastia seletiva a laser;
- cirurgias;
- exames de campo visual;
- tomografia de coerência óptica;
- acompanhamento periódico com o oftalmologista.
Também não recupera as fibras do nervo óptico que já foram perdidas. Mesmo que o paciente perceba melhora no condicionamento físico ou apresente uma redução momentânea da pressão ocular após o exercício, deve continuar seguindo o tratamento prescrito.
A interrupção dos colírios sem autorização médica pode permitir que a doença avance silenciosamente.
Saiba mais: Quer entender como funciona o tratamento do glaucoma? Então leia os artigos no nosso site sobre uso de colírios, cirurgias, stents e outros cuidados.
https://mariabeatrizguerios.com.br/category/tratamento-do-glaucoma/
É necessário consultar um médico antes de começar?
Pacientes com glaucoma devem conversar com o oftalmologista antes de iniciar exercícios muito intensos ou modalidades que envolvam:
- posições invertidas;
- levantamento de cargas elevadas;
- mergulho;
- pressão direta sobre os olhos;
- variações importantes de altitude ou pressão;
- risco elevado de impacto ou trauma ocular.
Pessoas sedentárias, idosas ou com doenças cardiovasculares também podem precisar de avaliação clínica antes de começar uma nova rotina.
Perguntas frequentes – FAQ
Quem tem glaucoma pode caminhar?
Sim. A caminhada é uma atividade aeróbica acessível e, de maneira geral, segura para pessoas com glaucoma. A duração e a intensidade devem respeitar o condicionamento físico e as demais condições de saúde.
A atividade física reduz a pressão intraocular?
Exercícios aeróbicos podem reduzir temporariamente a pressão intraocular. O efeito varia entre as pessoas e não substitui o tratamento médico.
O sedentarismo piora o glaucoma?
Estudos observacionais sugerem uma associação entre menor atividade física e progressão mais rápida do campo visual. Entretanto, ainda não está comprovado que o sedentarismo seja uma causa direta da piora.
Quem tem glaucoma pode fazer academia?
Na maioria dos casos, sim. É importante evitar prender a respiração durante os exercícios e ter cuidado com cargas excessivas. Pacientes com glaucoma avançado devem receber orientação individualizada.
Quem tem glaucoma pode correr?
Muitos pacientes podem correr, desde que estejam clinicamente aptos e que a atividade seja liberada pelos médicos responsáveis.
Exercícios podem curar o glaucoma?
Não. O glaucoma é uma doença crônica. A atividade física pode complementar o tratamento, mas não reverte os danos já existentes.
Qual é o melhor exercício para glaucoma?
Os exercícios aeróbicos moderados são os mais estudados. Caminhada, bicicleta e dança estão entre as opções. A melhor atividade é aquela que pode ser praticada com regularidade e segurança.
Fazer exercícios evita a cegueira causada pelo glaucoma?
Não há comprovação de que o exercício, isoladamente, evite a cegueira. A principal forma de preservar a visão é diagnosticar precocemente, controlar a pressão intraocular e manter acompanhamento oftalmológico.

Conclusão
A atividade física regular pode ser uma importante aliada no cuidado de pessoas com glaucoma. Estudos sugerem que pacientes mais ativos apresentam uma progressão mais lenta da perda do campo visual, além de benefícios cardiovasculares, metabólicos e funcionais.
Contudo, ainda são necessários estudos clínicos para determinar quanto exercício é necessário, quais modalidades oferecem maior benefício e se existe uma relação direta de causa e efeito.
O mais importante é compreender que uma vida ativa faz parte de um conjunto de cuidados. Ela não substitui os colírios, o laser, as cirurgias ou o acompanhamento médico.
Com orientação individualizada, a atividade física pode contribuir para a saúde geral, a autonomia e a qualidade de vida do paciente, além de possivelmente ajudar na preservação da função visual.
Sobre a Dra. Maria Beatriz Guerios – CRM 102.665 / RQE 96.065
A Dra. Maria Beatriz Guerios é médica oftalmologista e especialista em glaucoma, dedicando-se ao diagnóstico, acompanhamento e tratamento da doença. Seu trabalho é focado na preservação da visão por meio de uma abordagem individualizada e baseada nas evidências científicas mais atuais.
Formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), conta com especialização pela UNIFESP. Possui Título de Especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e pela Associação Médica Brasileira (AMB).
O consultório fica na Vila Nova Conceição, zona sul da cidade de São Paulo. O atendimento conta com a experiência em Glaucoma da Dra. Maria Beatriz, além de exames de ponta e cirurgia a laser para o glaucoma.
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Referências científicas
