
Mitos e Verdades sobre o Glaucoma: o que a ciência mais recente diz
O glaucoma é uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo — e um dos temas oftalmológicos mais cercados de crenças equivocadas. Por ser uma doença silenciosa, que na maioria dos casos não causa sintomas nas fases iniciais, informações erradas circulam com facilidade e podem atrasar o diagnóstico ou levar ao abandono do tratamento.
A seguir, reunimos as dúvidas mais frequentes sobre a doença e respondemos com base em evidências científicas atuais, separando o que é mito do que é, de fato, verdade.
1- O glaucoma afeta apenas os olhos
Mito.
Durante muito tempo, o glaucoma foi visto como um problema restrito à pressão intraocular. Hoje, sabe-se que a saúde do nervo óptico também depende da circulação sanguínea, da saúde cardiovascular e até de fatores ambientais, como a qualidade do ar.
Por isso, condições como hipertensão arterial, diabetes, aterosclerose e exposição prolongada à poluição atmosférica podem influenciar o desenvolvimento ou a progressão da doença. O glaucoma passou a ser compreendido como uma condição multifatorial e, em certa medida, sistêmica — e não apenas ocular.
2- Só existe risco de glaucoma quando a pressão do olho está alta
Mito.
A pressão intraocular elevada continua sendo o principal fator de risco modificável, mas não explica todos os casos. Existem pacientes com pressão ocular considerada normal que, ainda assim, desenvolvem lesão progressiva do nervo óptico — é o chamado glaucoma de tensão normal.
Por outro lado, há pessoas com pressão elevada que nunca desenvolvem a doença. Isso reforça a importância do acompanhamento oftalmológico regular, e não apenas da aferição isolada da pressão ocular.
3- Usar óculos trata ou corrige o glaucoma
Mito.
Óculos corrigem erros refrativos, como miopia e astigmatismo, mas não têm nenhum efeito sobre a pressão intraocular nem sobre o dano ao nervo óptico causado pelo glaucoma. O controle da doença depende de colírios específicos, laser ou cirurgia, sempre com acompanhamento de um oftalmologista especializado.
4- O glaucoma tem cura
Mito.
O glaucoma é uma doença crônica e progressiva. Até o momento, não existe tratamento capaz de curá-lo.
O que os tratamentos disponíveis — colírios, laser (como a Trabeculoplastia Seletiva a Laser) e cirurgia — conseguem fazer é controlar a pressão intraocular e retardar ou interromper a progressão da doença, preservando a visão que ainda resta. Quanto mais precoce o diagnóstico, maiores as chances de manter a visão ao longo da vida.
5- Glaucoma é uma doença de idosos
Mito.
Embora o risco aumente a partir dos 40 anos, o glaucoma pode acometer pessoas de qualquer idade. Existem formas da doença que afetam bebês (glaucoma congênito) e crianças e jovens adultos (glaucoma juvenil).
Por isso, histórico familiar e sinais específicos em cada faixa etária também devem ser levados em conta na avaliação de risco — não apenas a idade.
6- O laser para tratar glaucoma “queima” o olho ou é arriscado
Mito.
A Trabeculoplastia Seletiva a Laser (SLT) utiliza pulsos de baixa energia direcionados apenas às células pigmentadas da malha trabecular, responsável pela drenagem do humor aquoso. Diferentemente de lasers mais antigos, não provoca danos térmicos relevantes nem cicatrizes na estrutura de drenagem.
É considerado um procedimento seguro, rápido e feito em consultório — embora, como qualquer procedimento médico, não seja totalmente isento de riscos (os efeitos adversos mais comuns são leves e transitórios).
Saiba mais – Se você quer conhecer melhor o SLT, leia esse artigo completo que preparamos.
7- O laser substitui os colírios em todos os pacientes
Depende.
A resposta ao laser varia de pessoa para pessoa. Alguns pacientes conseguem ficar anos sem usar colírio após o procedimento; outros continuam precisando da medicação, ainda que em menor quantidade. O tratamento é sempre individualizado, definido pelo oftalmologista especialista em glaucoma.
8- Estresse crônico pode aumentar o risco de glaucoma
Verdade.
Estudos mostram que o estresse crônico eleva os níveis de cortisol, o que pode aumentar a pressão intraocular e acelerar o envelhecimento de células da retina importantes para a visão. O estresse também pode atuar como gatilho ambiental em pessoas com predisposição genética à doença.
Dessa forma, controlar o estresse — inclusive com práticas como meditação, que já demonstrou reduzir a pressão intraocular em estudos clínicos — pode ser um aliado no cuidado com a saúde ocular.
9- Apneia do sono está relacionada a maior risco de glaucoma
Verdade.
Pessoas com apneia obstrutiva do sono apresentam maior risco de desenvolver glaucoma e podem ter progressão mais rápida da doença, segundo estudos científicos recentes. Isso reforça a importância de investigar e tratar distúrbios do sono como parte do cuidado geral da saúde ocular.
10 – Alguns remédios para hipertensão podem aumentar o risco de glaucoma
Verdade.
Estudos apontam que usuários de bloqueadores de canais de cálcio, uma classe de medicamento para hipertensão, apresentaram cerca de 39% mais risco de desenvolver glaucoma em comparação a quem não usa esses medicamentos.
Isso não significa suspender a medicação por conta própria — a orientação é conversar com o médico responsável e manter o acompanhamento oftalmológico em dia.
11- Atividade física ajuda a retardar a progressão do glaucoma
Verdade.
Pesquisas indicam que pacientes fisicamente ativos demoram mais tempo para perder campo visual em comparação a pacientes sedentários. A atividade física regular contribui para a saúde cardiovascular, que, como já mencionado, também está ligada à saúde do nervo óptico.
12- A alimentação pode influenciar o risco de glaucoma
Verdade.
Um estudo espanhol associou a dieta mediterrânea — rica em vegetais, azeite, peixes e grãos integrais — a uma redução significativa no risco de desenvolver glaucoma, especialmente quando combinada a outros hábitos saudáveis. Nutrientes como o ômega-3 também vêm sendo estudados por seu possível papel protetor para a saúde ocular.
13- O glaucoma é considerado hoje uma doença neurodegenerativa
Verdade.
Esse é um conceito mais recente, mas já bem estabelecido cientificamente: o glaucoma provoca a perda progressiva de células do nervo óptico, de forma semelhante ao que ocorre em outras doenças neurodegenerativas.
Essa compreensão ajuda a explicar por que o controle da pressão ocular, isoladamente, nem sempre é suficiente para impedir a progressão em todos os pacientes, e reforça a importância de uma abordagem de saúde mais ampla.
Perguntas frequentes sobre glaucoma
O glaucoma dá para perceber sozinho, sem ir ao médico?
Não. Na maioria dos casos, o glaucoma não causa sintomas nas fases iniciais. O diagnóstico depende de exames oftalmológicos específicos, por isso consultas regulares — principalmente após os 40 anos ou com histórico familiar da doença — são essenciais.
Existe algum jeito de prevenir totalmente o glaucoma?
Não é possível eliminar o risco por completo, especialmente quando há predisposição genética. Mas controlar pressão arterial, diabetes e colesterol, praticar atividade física, cuidar da alimentação e do sono, e manter o acompanhamento oftalmológico regular ajudam a reduzir o risco e a detectar a doença precocemente.
Quem tem glaucoma vai ficar cego?
Não necessariamente. Quando diagnosticado e tratado precocemente, o glaucoma pode ser controlado e a visão preservada na maioria dos pacientes. O risco de cegueira aumenta principalmente quando o diagnóstico é tardio ou o tratamento é interrompido.
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Artigo com supervisão de Dra. Maria Beatriz Guerios – CRM 102.665 / RQE 96.065, Oftalmologista Especialista em Glaucoma.
Dra. Maria Beatriz Guerios é oftalmologista geral e especialista em Glaucoma, formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com especialização pela UNIFESP e Título de Especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e pela Associação Médica Brasileira (AMB).
O consultório fica na Vila Nova Conceição, zona sul de São Paulo. Para agendar uma consulta, ligue para (11) 3846-0200 ou mande mensagem pelo WhatsApp: (11) 97859-1080.
