Miopia alta pode levar ao glaucoma? O que você precisa saber

Miopia alta pode levar ao glaucoma? O que você precisa saber

Alta miopia pode levar ao glaucoma? Graus elevados de miopia merecem atenção

Durante muito tempo, a miopia foi vista apenas como um problema refrativo, ou seja, uma questão fácil de resolver com o uso de óculos ou lente de contato. Contudo, quando o paciente tem um grau elevado, a atenção deve ir muito além da necessidade de corrigir a visão.

Um estudo recente publicado no American Journal of Ophthalmology chama a atenção para uma associação particularmente importante: o crescimento da miopia em todo o mundo poderá contribuir para um aumento significativo dos casos de glaucoma nas próximas décadas. (1)

E há outro dado que merece atenção: esse fenômeno pode fazer com que o glaucoma seja diagnosticado também em um número maior de pessoas mais jovens.

Qual é a relação entre miopia e glaucoma?

A miopia acontece quando, geralmente, o olho apresenta um comprimento axial maior do que o normal. Em outras palavras, é um olho mais alongado. Com isso, os raios de luz são focalizados antes da retina, causando dificuldade para enxergar objetos distantes com nitidez.

Quanto maior o grau da miopia, maiores podem ser também algumas alterações estruturais do olho.

Na alta miopia, o alongamento do globo ocular pode produzir modificações na retina, na coroide e na região do nervo óptico. Essas características são particularmente relevantes quando falamos em glaucoma.

O glaucoma é o nome que se dá a uma série de condições que causam danos irreversíveis no nervo óptico. Essas lesões levam à perda do campo visual, quando o glaucoma não é diagnosticado e tratado adequadamente.

A miopia, especialmente a alta miopia, é reconhecida como um importante fator associado ao aumento do risco de glaucoma de ângulo aberto.

Isso não significa que toda pessoa com miopia desenvolverá glaucoma. Significa que pacientes míopes, principalmente aqueles com graus elevados, constituem um grupo que merece acompanhamento oftalmológico cuidadoso ao longo da vida.

Estudo projeta quase 193 milhões de pessoas com glaucoma de ângulo aberto em 2060

Um estudo publicado no American Journal of Ophthalmology analisou a prevalência mundial do glaucoma de ângulo aberto e fez projeções até 2060.

Os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise de 77 estudos populacionais, publicados entre 1991 e 2023, e incorporaram às projeções dados sobre o crescimento da miopia obtidos a partir de outros 57 trabalhos científicos.

Os resultados chamam a atenção.

Entre pessoas com 40 anos ou mais, a prevalência global do glaucoma de ângulo aberto deverá aumentar de aproximadamente 2,8% em 2024 para 3,5% em 2060.

Em números absolutos, isso significa passar de aproximadamente:

  • 80,5 milhões de pessoas com glaucoma de ângulo aberto em 2024 para 186,6 milhões em 2060.

O envelhecimento e as mudanças demográficas explicam uma parte importante desse crescimento. Mas não explicam tudo. Segundo os pesquisadores, aproximadamente 28,9 milhões de casos adicionais poderão estar relacionados ao crescimento da miopia no mundo. Isso corresponde a cerca de 27% do aumento projetado dos casos.

Quando também são considerados os casos de glaucoma de início precoce associados à alta miopia, a estimativa chega a aproximadamente 192,7 milhões de pessoas com glaucoma de ângulo aberto em 2060.

Saiba mais: Entenda melhor o que é Glaucoma de ângulo aberto no link

Glaucoma Primário de Ângulo Aberto – O que você precisa saber

Alta miopia pode antecipar o risco de glaucoma

Talvez um dos resultados mais importantes do estudo seja justamente o impacto entre os mais jovens. O glaucoma costuma ser associado ao envelhecimento, e a idade realmente permanece como um dos seus principais fatores de risco.

Entretanto, a alta miopia pode mudar parte desse cenário. Os pesquisadores estimam que, em 2060, poderão existir aproximadamente 6,1 milhões de casos de glaucoma de ângulo aberto de início precoce, entre pessoas de 20 a 39 anos, relacionados à alta miopia.

Na população jovem com alta miopia analisada pelos autores, a prevalência combinada de glaucoma de ângulo aberto utilizada para a projeção foi de 4,4%.

Isso reforça uma mensagem importante: glaucoma não é uma doença exclusivamente de pessoas idosas.

Pacientes jovens com alta miopia também podem apresentar risco aumentado e precisam ser avaliados de acordo com suas características individuais.

Por que a alta miopia aumenta a preocupação com o nervo óptico?

Nos olhos altamente míopes, o aumento do comprimento axial pode provocar alterações anatômicas importantes. O disco óptico pode apresentar formato e características diferentes, além de alterações nos tecidos ao redor do nervo óptico.

Essas mudanças têm duas implicações importantes. A primeira é que podem tornar o nervo óptico mais suscetível a determinados danos. A segunda é que o diagnóstico e o acompanhamento do glaucoma em pacientes com alta miopia podem ser mais complexos.

Algumas alterações provocadas pela própria miopia podem se parecer com alterações encontradas no glaucoma. Exames de imagem, como a Tomografia de Coerência Óptica (OCT), também precisam ser interpretados levando em consideração a anatomia particular dos olhos altamente míopes.

Por isso, não é recomendável avaliar o risco de glaucoma com base apenas em um resultado isolado.

Pressão ocular normal não exclui glaucoma

Outro ponto importante é que ter pressão intraocular considerada dentro dos valores estatisticamente normais não significa necessariamente estar livre do glaucoma.

A pressão intraocular é um dos principais fatores de risco para a doença e seu controle é fundamental no tratamento. Entretanto, o diagnóstico envolve uma avaliação mais ampla.

Dependendo de cada paciente, o oftalmologista pode analisar:

  • pressão intraocular;
  • aspecto do nervo óptico;
  • espessura da córnea;
  • campo visual;
  • OCT do nervo óptico e das fibras nervosas;
  • histórico familiar;
  • idade;
  • grau de miopia e comprimento axial;
  • evolução dos exames ao longo do tempo.

Nos pacientes com alta miopia, essa análise conjunta e, principalmente, a comparação dos exames ao longo dos anos podem ser ainda mais importantes.

Tenho miopia. Preciso fazer exames para glaucoma?

Ter miopia não significa que você terá glaucoma. Porém, quanto maior o grau de miopia, maior deve ser a atenção à saúde ocular como um todo, não apenas à troca dos óculos.

Pessoas com alta miopia devem manter acompanhamento oftalmológico periódico, mesmo quando enxergam bem com a correção óptica e não apresentam sintomas. Isso é especialmente importante porque o glaucoma geralmente evolui de maneira silenciosa em suas fases iniciais. O paciente pode continuar enxergando bem e não perceber alterações importantes no campo visual.

A epidemia de miopia também pode mudar o perfil do glaucoma

O crescimento mundial da miopia é frequentemente discutido como um problema relacionado à visão de crianças e adolescentes. O novo estudo mostra que suas consequências podem acompanhar essas pessoas durante décadas.

Se um número cada vez maior de crianças e jovens desenvolver miopia — e parte deles evoluir para graus elevados — poderemos ter no futuro uma população maior exposta às complicações associadas à alta miopia, incluindo o glaucoma.

Os próprios autores concluem que estratégias de prevenção da miopia e novas formas de rastreamento direcionadas às populações de maior risco serão importantes para reduzir o impacto futuro do glaucoma.

Portanto, controlar a progressão da miopia durante a infância e acompanhar adequadamente os pacientes altamente míopes na vida adulta são duas partes de uma mesma estratégia: preservar a visão ao longo da vida.

Miopia alta e glaucoma: perguntas frequentes

Quem tem miopia tem mais risco de glaucoma?

A miopia está associada a um risco aumentado de glaucoma de ângulo aberto, especialmente nos graus mais elevados. Entretanto, isso não significa que todo paciente míope desenvolverá a doença.

A alta miopia pode causar glaucoma?

É mais adequado falar em aumento de risco e associação, e não afirmar que a miopia necessariamente causa glaucoma. O desenvolvimento da doença depende de diferentes fatores.

Jovens podem ter glaucoma relacionado à alta miopia?

Sim. Embora a frequência do glaucoma aumente com a idade, a alta miopia é particularmente importante porque pode estar associada ao aparecimento da doença em pacientes mais jovens.

Quem tem alta miopia deve medir a pressão ocular?

Sim, mas a avaliação não deve se limitar à pressão intraocular. A análise do nervo óptico, do campo visual e, quando indicado, exames de imagem como o OCT são importantes para uma avaliação completa.

Enxergar bem com os óculos significa que o nervo óptico está saudável?

Não necessariamente. Os óculos corrigem o erro refrativo da miopia, mas não previnem nem diagnosticam doenças do nervo óptico. Além disso, o glaucoma pode ser assintomático durante muitos anos.

Acompanhamento é fundamental para preservar a visão

O aumento da miopia em todo o mundo traz um novo desafio para a Oftalmologia. Não basta pensar apenas em quantos pacientes precisarão de óculos. É necessário considerar as consequências que o crescimento da miopia — principalmente da alta miopia — poderá ter para a saúde ocular nas próximas décadas.

O estudo publicado no American Journal of Ophthalmology reforça essa preocupação ao projetar que mais de um quarto do aumento esperado dos casos de glaucoma de ângulo aberto até 2060 poderá estar associado à epidemia de miopia. (1)

Para quem apresenta graus elevados, a mensagem não deve ser de alarme, mas de prevenção: acompanhar a saúde do nervo óptico regularmente permite identificar alterações precocemente e iniciar o tratamento quando necessário.

O glaucoma pode provocar perda visual irreversível. Por isso, diagnóstico precoce e acompanhamento adequado continuam sendo as principais estratégias para preservar a visão.

Sobre a Dra. Maria Beatriz Guerios – CRM 102.665 / RQE 96.065

Dra. Maria Beatriz Guerios é médica oftalmologista e especialista em glaucoma, dedicando-se ao diagnóstico, acompanhamento e tratamento da doença. Seu trabalho é focado na preservação da visão por meio de uma abordagem individualizada e baseada nas evidências científicas mais atuais.

Formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), conta com especialização pela UNIFESP. Possui Título de Especialista pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e pela Associação Médica Brasileira (AMB).

O consultório fica na Vila Nova Conceição, zona sul da cidade de São Paulo. O atendimento conta com a experiência em Glaucoma da Dra. Maria Beatriz, além de exames de ponta e cirurgia a laser para o glaucoma.

Para agendar a sua consulta, por favor mande mensagem no whatsapp ou ligue para:

(11) 97859 1080

Fonte

(1) Global Glaucoma Prevalence: Burden and Projection to 2060
Wang Z, Xue CC, Li Y, et al. American Journal of Ophthalmology. 2026;283:324-335. DOI: 10.1016/j.ajo.2025.12.013

 

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