
Neuroproteção em pacientes com glaucoma – O que você precisa saber
A neuroproteção em pacientes com glaucoma representa, hoje, uma nova perspectiva no tratamento da doença. Sendo assim, abrem-se novos caminhos e possibilidades para preservar a visão.
O glaucoma é a segunda causa de cegueira em todo o mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Como a doença é mais prevalente a partir dos 40 anos, a preocupação dos especialista é cada vez maior, já que o envelhecimento da população é um fenômeno em todo o mundo. Com isso, espera-se um aumento considerável dos casos da doença.
Dessa forma, o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas é cada vez mais importante. Para falar mais sobre a neuroproteção em pacientes com glaucoma, hoje vamos entrevistar a oftalmologista Dra. Maria Beatriz Guerios, especialista em glaucoma.
Neuroproteção em pacientes com glaucoma – O que você precisa saber
Primeiramente, é importante esclarecer que o tratamento do glaucoma tem como principal foco reduzir e controlar a pressão intraocular (PIO). Isso porque é o aumento da PIO que causa danos no nervo óptico. Contudo, os colírios e as cirurgias existentes para tratar o glaucoma não atuam na preservação das células nervosas.
“Portanto, os pesquisadores hoje buscam tratamentos que atuem também na proteção das células nervosas, envolvidas no glaucoma. A neuroproteção tem como alvo específico as células ganglionares da retina (RGCs) e seus axônios, os principais neurônios que o glaucoma afeta. Então, podemos dizer que a neuroproteção no glaucoma visa preservar essas células e prevenir a perda progressiva da visão, que caracteriza a doença”, explica Dra. Maria Beatriz.
Por que a neuroproteção é importante no glaucoma?
“Um dos principais problemas no glaucoma é que nem todos os pacientes respondem aos tratamentos. Em outras palavras, mesmo usando colírios ou passando por cirurgias, alguns pacientes não alcançam o controle da pressão intraocular. Com isso, continuam perdendo a visão. Em outros casos, mesmo com a PIO sob controle, a perda da visão progride”, comenta a médica.
Assim sendo, os pesquisadores na área do glaucoma buscam estratégias neuroprotetoras, como um complemento às terapias de redução da PIO.
Mecanismos de neuroproteção no glaucoma
De acordo com os estudos científicos sobre o glaucoma, há várias maneiras de proteger os olhos dos danos glaucomatosos.
- Redução do estresse oxidativo: o estresse oxidativo é como a ferrugem, que se forma em metais. Portanto, pode causar danos nas células nervosas dos olhos. Sendo assim, o uso de antioxidantes pode ajudar a prevenir esse tipo de dano.
- Prevenção da morte celular: no glaucoma, células específicas nos olhos são programadas para morrer, levando à perda da visão. Alguns tratamentos podem bloquear esse processo e manter essas células vivas.
- Aumento da energia celular: as células dos olhos têm pequenas estações de energia chamadas mitocôndrias, que as mantêm funcionando. Quando essas estações de energia não funcionam muito bem, as células podem morrer. Logo, melhorar essas “estações de energia” pode ajudar a proteger as células nervosas que o glaucoma afeta.
- Redução dos níveis prejudiciais de glutamato: o glutamato é um neurotransmissor, envolvido em diversas funções do sistema nervoso central. Contudo, há ligação desse aminoácido com doenças neurodegenerativas. Dessa forma, alguns tratamentos podem ajudar a diminuir os níveis de glutamato, para proteger as células nervosas afetadas pelo glaucoma.
Neuroproteção em pacientes com glaucoma na prática
“Atualmente, temos algumas opções de terapias neuroprotetoras, que são acessíveis e que estão em uso, inclusive no Brasil. Em contrapartida, há muitos tratamentos em fase de estudos pré-clínicos e clínicos”, aponta Dra. Maria Beatriz.
Agora, vamos conhecer algumas terapias de neuroproteção em pacientes com glaucoma.
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Brimonidina
Trata-se de um fármaco usado para reduzir a PIO. Estudos apontaram que essa substância aumenta a sobrevivência das células nervosas da retina, independente do controle da pressão intraocular.
Além disto, regula funções celulares, como crescimento neuronal, plasticidade, diferenciação e sobrevivência. Resumidamente, a brimonidina protege a retina do dano isquêmico e auxilia na regeneração neural após a lesão.
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Fator Neurotrófico Ciliar
O Fator Neurotrófico Ciliar (CNTF) é um neuropeptídeo produzido e liberado pelas células cerebrais. Vários estudos pré-clínicos mostraram que o CNTF aumenta a sobrevivência e a regeneração das células glanglionares da retina afetadas por doenças como o glaucoma. Atualmente um empresa farmacêutica conduz um estudo em Fase II. Os pacientes receberam um implante (dispositivo) no vítreo que libera o CNTF e estão sendo acompanhados para analisar a segurança e a eficácia.
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Fator de Crescimento do Nervo Humano Recombinante
O fator de crescimento do nervo humano recombinante (rhNGF) é um agente neuroprotetor eficaz, com um perfil de segurança e eficácia favorável. No Brasil já existem colírios à base de rhNGF que são usados no controle da PIO.
A novidade é que estudos apontaram que os medicamentos desta classe podem ter efeitos neuroprotetores. Mais estudos estão em andamento para avaliar se a neuroproteção ocorre independentemente do controle da pressão intraocular.
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Ginkgo Biloba
O extrato de Ginkgo biloba (GBE) tem vários efeitos antioxidantes e tem sido sugerido como um agente neuroprotetor em doenças neurodegenerativas, incluindo comprometimento cognitivo e doença de Alzheimer.
A disfunção mitocondrial e o estresse oxidativo têm sido associados ao desenvolvimento da demência e do glaucoma. Não surpreendentemente, dada essa sobreposição mecanicista, os pesquisadores exploraram de forma semelhante os potenciais benefícios terapêuticos do GBE no glaucoma.
Um estudo apontou que pacientes com glaucoma de tensão normal que receberam o ginko biloba mostraram melhorias significativas nos índices de campo visual. Além de seus efeitos antioxidantes, o ginko biloba também possui efeitos reguladores vasculares e demonstrou melhorar o fluxo sanguíneo ocular.
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Citicolina
A citicolina é um composto endógeno, ou seja, produzido pelo organismo. Hoje se mostra um potencial agente terapêutico para o glaucoma. Estudos clínicos investigaram recentemente os efeitos neuroprotetores da citicolina no glaucoma em suas formulações de colírio intramuscular (IM), oral e tópico.
Os principais apontamentos científicos mostram melhora significativa no teste de campo visual, com manutenção dos efeitos terapêuticos por pelo menos 3 meses. Houve também redução significativa na taxa de progressão glaucomatosa e melhora da função da retina.
Leia mais sobre a citicolina aqui.
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Bloqueadores dos Canais de Cálcio
Os bloqueadores dos canais de cálcio (BCCs) são fármacos usados para o controle da hipertensão arterial sistêmica. Estudos mostraram que estes medicamentos estão associados à neuroproteção do glaucoma, principalmente porque melhorar a circulação sanguínea ocular, especialmente no nervo óptico. Outro achado é que os BCCs retardam a progressão dos defeitos no campo visual.
No entanto, alguns tipos de BCCS podem prejudicar o fluxo sanguíneos em episódios agudos de glaucoma e devem ser usados com cautela.
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Antioxidantes
A diminuição dos níveis de antioxidantes em conjunto com o aumento do dano oxidativo dos radicais livres tem sido implicada na patogênese do glaucoma. Alguns estudos demonstraram que os danos oxidativos causam a degeneração da malha trabecular e elevação da PIO. Como resultado, ocorre os danos no nervo óptico resultando no glaucoma.
Portanto, as pesquisas a respeito do papel dos antioxidantes para combater os danos oxidativos são muito relevantes na área do glaucoma.
Entre os vários antioxidantes, a Coenzima Q10 (CoQ10 pode ser útil na eliminação de radicais livres e na minimização do estresse oxidativo. A nicotinamida (vitamina B3 ou NAM) também tem um perfil neuroprotetor favorável no glaucoma.
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Inibidores de Rho-quinase
Os inibidores da Rho-quinase são uma classe terapêutica estudada há décadas para tratar o glaucoma. O principal foco seria o controle da PIO por meio da melhora do escoamento do humor aquoso.
As pesquisas avaliam a capacidade destes fármacos de aumentar o fluxo sanguíneo ocular e a sobrevida das células ganglionares da retina. Ou seja, os estudos focam hoje no efeito neuroprotetor desta classe terapêutica.
Terapia com células-tronco – Um vislumbre do futuro do glaucoma
A terapia com células-tronco é uma abordagem nova e experimental, que pode, no futuro, ajudar pessoas com glaucoma. Em resumo, a ideia é usar células-tronco para substituir as células nervosas danificadas pelo glaucoma. A partir disso, espera-se a restauração da visão que o paciente já perdeu. Vale reforçar que a terapia com células-tronco para o glaucoma se encontra em estágios muito iniciais de pesquisa.
Conclusão
“A neuroproteção em pacientes com glaucoma é uma realidade e, adicionalmente, pode ser um divisor de águas no tratamento da doença, num futuro próximo. “Definitivamente, nós médicos devemos estar atentos as novas opções terapêuticas, que podem ser coadjuvantes dos tratamentos cirúrgicos e medicamentosos”, finaliza Dra. Maria Beatriz.
Dra. Maria Beatriz Guerios é Oftalmologista Geral e especialista em Glaucoma, bem como faz parte de uma equipe altamente capacitada, com as mais diversas especialidades da oftalmologia.
O consultório fica na cidade de São Paulo, na Vila Nova Conceição (zona Sul).
Para mais informações, ligue para (11) 3846-0200
Matéria produzida pela jornalista Leda Maria Sangiorgio – MTB 30.714
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